Alfred
Mele: Free Will and Neuroscience: Decision Times and the Point of No Return.
José
Pablo Rodrigues Francisco Do Nascimento.
RESUMO: O
objetivo central deste texto é apresentar uma síntese sobre as experiências
conscientes e sobre o livre-arbítrio, a partir das leituras do texto Free Will
and Neuroscience: Decision Times and the Point of No Return - Alfred Mele e os
experimentos realizados pelo neurocientista Benjamin Libet na década de 1980. Partindo
da análise das propostas de Mele; que afirma não possuir argumentos
neurocientíficos para a inexistência do livre-arbítrio será construída uma reflexão
crítica dos conceitos usados, que possibilitará futuras investigações e
experimentos sobre a filosofia e a mente. Por fim concluiremos com algumas reflexões
deixadas pelos autores a respeito do livre – arbítrio e neurociência.
PALAVRAS
– CHAVE: livre-arbítrio, neurociência e experiências
conscientes.
ABSTRACT:
The main objective of this text is to present a synthesis of conscious
experiences and free will, based on the readings of the text Free Will and
Neuroscience: Decision Times and the Point of No Return - Alfred Mele and the
experiments carried out by the neuroscientist Benjamin Libet in the 1980s.
Starting from the analysis of Mele's proposals; who claims not to have
neuroscientific arguments for the inexistence of free will, a critical
reflection of the concepts used will be constructed, which will enable future
investigations and experiments on philosophy and the mind. Finally, we will
conclude with some reflections left by the authors about free will and
neuroscience.
KEY WORDS:
free will, neuroscience and conscious experiences.
Livre Arbítrio e Neurociência – cap. IV.
Tempos de Decisão
e O Caminho sem Volta. Alfred Mele.
O presente texto trás de forma resumida os
estudos de Alfred
Remen Mele, filósofo americano e professor de filosofia William H. e Lucyle T.
Werkmeister em Filosofia na Universidade Estadual da Flórida. O capítulo
em análise faz parte de um projeto de filosofia e ciência do autocontrole e do
projeto Big Questions in Free Will.
O
capítulo 4, Free Will and Neuroscience: Decision Times and the Point of No
Return explora a influência de alguns estudos publicados depois de 2009 levantando
questionamentos sobre condições e evidências neurocientíficas convincentes para
a inexistência do livre-arbítrio. Alfred Mele foca sua pesquisa em dados
empíricos e agrupa as explicações em seções, as quais veremos a seguir:
·
A
Seção 1 fornece alguns fundamentos científicos e terminológicos.
·
A
seção 2 aborda uma questão sobre o momento em que as decisões são tomadas em
experimentos no estilo Libet em conexão com o exame de um argumento
neurocientífico familiar para a inexistência do livre-arbítrio.
·
A
seção 3 aborda um argumento neurocientífico relacionado que apresenta uma
afirmação sobre o ponto sem retorno para ações estudadas em experimentos desse
tipo.
·
A
seção 4 retoma um argumento cético que pode ser considerado como base em algum
trabalho neurocientífico recente.
·
A
seção 5 encerra as coisas.
(Alfred Mele).
O livre-arbítrio objetiva-se como algo
simples e óbvio, mas pelo contrário é algo profundo e questionador. - Why is
Free Will a Big Question, os filósofos que já se referiram ao tema denominam o
livre-arbítrio como “A grande Questão”, uma gama de possibilidades que explora
a natureza e o universo na busca de explicações sobre a realidade, ou melhor, a
existência humana e ao lidarmos com uma grande questão conseguimos despertar
diversos problemas, sejam eles de cunho social, filosófico e até mesmo
científico.
Alfred Mele explica que existem grupos de
pessoas que não acreditam em livre-arbítrio e afirma ser uma ilusão, outras
reivindicam e afirmam que é óbvio que existe um livre-arbítrio, mas de forma
geral depende de como nós formamos nosso entendimento sobre o tema. Se pensamos
que o livre-arbítrio está ligado a algo sobrenatural surgirá propostas
contrárias sobre a existência dele, contudo a grande questão mudaria de rumo
após ser mistificada a algo sobrenatural e que não será a proposta central
desta pesquisa.
Ao tentar realmente entender a natureza
profunda do livre-arbítrio é possível iniciar uma investigação de um ponto de
vista científico que torna aceitável estudar e compreender a uma pequena parte
da filosofia, pois o conteúdo da neurociência e as experiências conscientes são
assuntos muito ricos em discursão e possibilitam uma compreensão e sugerem uma
ligação na raiz da análise filosófica.
Sabemos que houve um tempo, em que alguns filósofos
que escreviam sobre o livre-arbítrio pensavam que para realizar ações de
liberdade do pensamento teríamos de conseguir fazer o oposto da época, então a
discordância sobre a capacidade de fazer de outra forma, ou ter uma opinião
contrária equivalia a um experimento mental, projeta-se para tanto, uma mostra
de pensamento humano que possa ser moralmente responsável por suas ações.
Perceber o comportamento do cérebro ao
realizar tarefas diárias, projetar desempenhos e emoções constrói-se a
investigação sobre algumas questões sobre o livre-arbítrio e seu comportamento,
pois como sabemos nós seres humanos, protagonistas de nossas vidas, estamos
realmente agindo por conta própria! Essa afirmativa ela é consistente ou possui
várias respostas individuais? Existem várias respostas para tal questão e
mediante aos casos registrados há uma conexão entre a crença e os fundamentos
conceituais na psicologia. “Em
casos típicos, quando tomamos decisões sobre assuntos que são muito importantes
para nós, depois de coletar evidências cuidadosamente e avaliar minuciosamente
as opções, nossas opções principais diferem umas das outras de maneiras que
importam para nós, e não escolhemos arbitrariamente”.
(Alfred Mele).
Nossas principais perguntas a respeito do
livre-arbítrio são tradicionais, como, por exemplo, quais são as condições
necessárias para o livre-arbítrio? E para responder esta pergunta Alfred Mele
reúne relatos de psicólogos, neurocientistas e filósofos em três exposições, no
qual haverá uma troca produtiva de ideias. Para a ciência explicar o livre-arbítrio
precisa começar com a análise da emoção, o estudo das funções neurais, o
cérebro.
Por meio do que se foi pesquisado, a
ciência responde através do experimento do neurocientista Benjamin Libet, a
tarefa era básica, sujeitos flexionariam o pulso sempre que tivessem vontade...
“As decisões de fazer as coisas, como as concebo, são ações momentâneas de
formação de uma intenção de fazê-las. Por exemplo, decidir flexionar meu pulso
direito agora é realizar uma ação (não aberta) de formar uma intenção de
flexioná-lo agora” (Mele 2003, cap. 9).
Alfred
Mele expõe que o experimento mental de Benjamin Libet na década de 1980, o
levou a uma visão filosófica sobre o livre-arbítrio, que pode ser compreendida como
compatível ao determinismo, este mesmo determinismo pode ser incompatível coma
a habilidade de fazer, ou realizar de outra forma. Entretanto, o objetivo do artigo
era chegar a conclusão que o livre-arbítrio não existe. “Meu foco estava nos
dados e se os dados apoiavam certas afirmações empíricas que foram combinadas
com afirmações teóricas sobre o livre-arbítrio para chegar à conclusão de que o
livre-arbítrio não existe”. (Mele 2009, caps. 3, 4 e 6).
Determinismo[1] é a possível ideia de que
uma lista completa de leis da natureza junto com uma descrição completa do
universo em qualquer ponto no tempo implica todas as outras verdades sobre o
mesmo universo. Então o que está compatível significa que foi predeterminado nesta
longa sequência de causalidade, por isso
não poderia ter feito de outra forma, porém não há obrigatoriedade ao fazê-lo
por alguém, algo ou vício, sendo assim, mesmo que determinismo consiga excluir
a possibilidade de livre-arbítrio ser percebido como uma relação de pensamento
e experiência com relações conscientes, o livre-arbítrio exige uma
necessariedade o alto questionamento.
No
experimento mental, o que garante que a decisão acontecerá é o fato do humano
realizar uma ação por conta própria, ou realizar porque o faz como uma ação
normal, explicado em um caso normal de tomada de decisão, então supõe-se que o
cérebro funciona de uma maneira que lhe dá apenas probabilidades de tomar uma
decisão de cada vez, logo o processo que leva à sua decisão pode deixar em
aberto a tomada de decisões, mas já na possibilidade do bloqueio de probidades
existirá um itinerário. “Nesses experimentos, os participantes selecionam
opções sobre as quais são indiferentes. Mas em muitos casos de tomada de
decisão, estamos longe de ser indiferentes a algumas de nossas opções, e muitas
instâncias de decisão não são instâncias de escolha arbitrária.” (Alfred Mele).
Alfred Mele interpreta as ações em seus
estudos como um sentimento próprio a respeito da natureza da realidade, no qual
existem abordagens radicais totalmente diferentes para algo tão fundamental
como o livre-arbítrio, isso o faz pensar que a questão deve ser profunda e
complicada para levar a tantas soluções possíveis e isto é uma das coisas que
favorecem o aumento pelo interesse na busca pelo entendimento do livre-arbítrio.
Não deixando de lado os diferentes entendimentos relacionados ao mundo real,
dado específico baseado na neurociência, física e outras ciências do gênero,
que também são admiradas pelo autor.
Ao longo dos estudos de Alfred Mele e sua
reflexão sobre os experimentos citados no capítulo 4, que tem como objetivo a
comprovação da não existência do livre-arbítrio, o autor consegue analisar os
experimentos e alcança trazer um corpo de evidências e argumentos
neurocientíficos – DAS[2] e PSA[3] – apoiado na conclusão que
ambos os argumentos falham, Alfred Mele também vai analisar uma outra
possibilidade para a comprovação da inexistência do livre-arbítrio chamada de
NSA[4].
A questão que Alfred Mele descreve, não
está relacionada especialmente de uma forma filosófica, mas de uma forma
psicológica, onde o próprio autor tenta descobrir o que as pessoas comuns
entendem por livre – arbítrio, a ferramenta utilizada é apenas contar histórias
simples e levantar questionamentos sobre o personagem principal da história, se
tinha livre – arbítrio em um determinado momento, ou não!, então ao refletir
sobre os experimentos já tratados e consequentemente perceber as relações
interpessoais Alfred Mele projeta uma descrição entre o papel científico e o
filosófico, este papel é o objetivo central da pesquisa, que está centrado em
questionar as pessoas se elas possuem livre-arbítrio, ou o cérebro[5] age como antecipador de
ações não existindo uma liberdade de ação.
Exposto em:
(2012, pág.
E2909). Como Trevena, Miller e eu, eles desafiam essa suposição. Na opinião deles,
o cérebro usa “flutuações espontâneas contínuas na atividade neural” (p. E2904)
– ruído neural, em suma – para resolver o problema sobre quando agir em estudos
no estilo Libet. Um limite para decisão é estabelecido e, quando tal atividade
o cruza, uma decisão é tomada. Eles afirmam que a maior parte do RP – todos,
exceto os últimos 150 a 200 ms ou mais (p. E2910) – precede a decisão. Além de
fornecer evidências para isso provenientes do trabalho de outros cientistas,
Schurger et al. oferecem provas próprias. Eles usam “um acumulador estocástico
com vazamento para modelar a decisão neural” feita sobre quando se mover em um
experimento no estilo Libet, e relatam que seu modelo “considera os dados comportamentais
e [eeg] registrados de sujeitos humanos realizando a tarefa” (pág. E2904).
Outro ponto em
questão é a breve definição do livre-arbítrio como, “eu posso fazer qualquer
coisa a qualquer momento e há nenhum tipo de inibição do que eu posso fazer”. Já
na sequência do texto, no que diz respeito a tomada de decisões, como, por exemplo,
o que acontece em todo o estado do universo e o que não é relevante pode-se
então criar uma confusão de ideias, ideias estas ligadas a uma decisão real, na
qual como as decisões são capazes de tornar o arbítrio totalmente livre. Porém,
Alfred Mele não concorda com a afirmação de livre-arbítrio, ou melhor, o conceito
próprio não consegue se sustentar sozinho necessitando de um mecanismo
real(físico) ou imaginário para sustentá-lo. “Meu foco estava nos dados e se os
dados apoiavam certas afirmações empíricas que foram combinadas com afirmações
teóricas sobre o livre-arbítrio para chegar à conclusão de que o livre-arbítrio
não existe.” (Alfred Mele).
... “Com base em dados de vários
tipos, argumentei que os participantes de Libet não tomam decisões tão cedo
quanto 550 ms antes do início do movimento muscular (-550 ms)”. (Alfred Mele).
As decisões mencionadas é fundamentada em um processo causal e está em
funcionamento aumentando a probabilidade de uma flexão subsequente[6], mas não a leva a um lugar
específico, então o que podemos entender é que -550 ms é uma causa potencial de
flexão subsequente, portanto a decisão pode ser tomada depois de -500 ms ou
-550 ms. Existe até possibilidades dessas decisões serem tomadas, ou realizadas
em torno de -200 ms, quando as pessoas dizem que acham que obtêm sucesso na
resolução de problemas.
Conclusão: O resultado desses experimentos em termos de
perspectivas, em relação ao livre-arbítrio é a espera que esses experimentos
mostrem que não há livre arbítrio e Alfred Mele aponta como fator crucial é que
eles, os experimentos, não mostram isso, por três razões bem diferentes.
Primeiro ponto, em termos de julgamento não são confiáveis, então não sabemos
realmente quando as pessoas se deram conta do desejo (ação, querer fazer). O
segundo ponto é não termos boas evidências do que acontece em -550
milissegundos, cerca de meio segundo antes do estouro muscular, questionado em
como uma decisão é tomada em relação a uma causa de decisão final e não temos
evidências de que está realmente acontecendo. O terceiro e último ponto é a
percepção de que podemos continuar questionando a existência do livre-arbítrio
e pode ser que o livre-arbítrio principalmente não esteja funcionando nessa
dimensão em nossas vidas, mas funcionando em dimensões mais amplas. Desta forma
Alfred Mele conclui que entender o livre-arbítrio é o caminho que possui várias
opções, longe de uma afirmação própria de caminho certo ou errado, deixando-os
aberto para novas possibilidades.
Referências
LIBET,
B. (1985). “Unconscious Cerebral Initiative and the Role of Conscious Will
in Voluntary Action.” Behavioral and Brain Sciences 8: 529–66.
LIBET,
B. (2001). “Consciousness, Free Action and the Brain.” Journal of
Consciousness Studies 8: 59–65.
LIBET, B. (2004). Mind
Time. Cambridge, MA: Harvard University Press.
MELE, A. (2019). Free
will and neuroscience: decision times and the point of no return. In: Feltz
B, Missal M, Sims. A. (eds); Free will, causality, and neuroscience.
Brill.
[1]
Os
compatibilistas sobre o livre-arbítrio sustentam que o livre-arbítrio é
compatível com o determinismo (veja McKenna e Coates 2015 para uma revisão
instrutiva). Em um universo determinístico, o ponto sem retorno dos processos é
atingido muito cedo! Free Will
and Neuroscience: Decision Times and the Point of No Return - Alfred Mele.
Capítulo 4.
[2] Eu o chamei de
argumento cético focado na decisão, ou dsa para abreviar. 1. Em experimentos no
estilo Libet, todas as decisões de agir sobre quais dados são coletados são
tomadas inconscientemente. (Alfred Mele).
[3] Eu chamo isso de
psa, onde P significa “ponto sem retorno”. 1. Em experimentos no estilo Libet,
o ponto sem retorno para processos que resultam em ações evidentes é alcançado
bem antes que as decisões correspondentes sejam tomadas (em qualquer lugar de
550 ms a vários segundos antes do movimento muscular). (Alfred Mele).
[4] Eu chamo de nsa,
onde N significa “ruído”. 1. Em experimentos no estilo Libet,
nenhuma das decisões de agir sobre quais dados são coletados provém de
processos conscientes (relativamente próximos). (Alfred Mele).
[5] O cérebro “decide”
iniciar ou, pelo menos, preparar-se para iniciar [certas ações] antes que haja qualquer
consciência subjetiva reportável de que tal decisão ocorreu. libet 1985, p. 536.
(Alfred Mele).
[6] Mesmo que a
precisão da codificação fosse muito maior, pode-se razoavelmente perguntar se o
que está sendo detectado são decisões ou causas potenciais de decisões
subsequentes. (Libet)
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